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O que fazer e não fazer em caso de tragédias

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Por Daniel Martins de Barros

É difícil saber o que dizer diante das tragédias. Mas é importante saber o que não fazer.

A tragédia sem precedentes ocorrida em Brumadinho é daquelas notícias que nos desafiam a escolher as palavras. Tem-se a sensação de que não falar nada é tão errado quanto tentar falar alguma coisa. Consolar parece impossível. Acusar parece fácil. Enviar pensamentos positivos parece inútil. Quem não perdeu nem está ajudando a encontrar alguém tem pouco o que dizer.

No entanto é cada vez mais comum buscar a opinião de profissionais de saúde mental para planejar intervenções voltadas aos sobreviventes e parentes de vítimas de tragédias. O que deve ser feito, o que ajuda se dito, o que pode ser prescrito. Essa talvez seja uma pequena contribuição que podemos realmente dar.

Durante muito tempo se acreditou que era importante fazer as pessoas falarem sobre o que estavam sentindo, repassar o que havia acontecido, colocar para fora seus pensamentos numa consulta realizada nos dias seguintes ao trauma. Essa estratégia conhecida como debriefing psicológico tem muito apelo intuitivo, pois nós ainda vemos a mente como uma panela de pressão que precisa aliviar sua carga. No entanto, como essa visão da mente humana é equivocada, essa técnica não tem resistido às pesquisas científicas. Quando testada formalmente ela se mostra ineficaz, e às vezes prejudicial, para as pessoas. Tanto que não é recomendada pela Organização Mundial de Saúde.

O mesmo se pode dizer de alguns remédios. Os tão populares Rivotril, Valium, Lorax e outros benzodiazepínicos são extremamente eficazes para reduzir sintomas de ansiedade – não por acaso são chamados de calmantes. Seu uso, contudo, embora pareça fazer sentido, não vem mais sendo indicado, pois eles podem até mesmo aumentar o risco de adoecimento. Como dormir é uma forma de solidificar memórias, o sono induzido por tais remédios eleva a chance de as memórias traumáticas se consolidarem, levando ao estresse pós-traumático.

Mas há algo que é praticamente unanimidade entre os estudos em vítimas de traumas e tragédias: a percepção de suporte social é um dos fatores de maior proteção para o sofrimento imediato e o adoecimento posterior. Ao sermos expostos a um perigo excepcional ou a uma perda trágica, o cérebro nos coloca num alerta extremo para nos proteger de riscos. Diante do inesperado, a sensação de insegurança é paradoxalmente uma forma de tentar ficar seguro. Essa sensação, contudo, está por trás dos sintomas tanto da reação aguda ao evento como do estresse pós-traumático posterior. Mas se a pessoa sente que está recebendo suporte social, proteção, amparo e acolhimento, esse alerta é gradualmente reduzido, dada sua percepção de segurança, diminuindo os riscos de adoecimento.

Também parece intuitivo. Oferecer ativamente ajuda e consolo a quem sofre faz parte dos rituais mais antigos da humanidade. A diferença é que, diferentemente de outras formas de ajuda que parecem fazer sentido, essa vem tendo sua eficácia cientificamente comprovada.

Não que precisássemos de mais argumentos para ser solidários.

*Fonte: Estadão.

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