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Fé cristã e arte: objetividade ou subjetividade?

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Uma das discussões mais comuns no universo da arte é se a experiência estética é objetiva ou subjetiva. Em outras palavras, se ela é regulamentada por normas absolutas ou se constitui terreno da completa autonomia humana, sobre o qual fazemos o que bem entendemos.

José Manoel da Conceição*

A respeito dessa questão, Rookmaaker escreveu certa vez que “a vida e a arte são complexas demais para aplicarmos regras legalistas; mas isso não significa que não há normas” (ROOKMAAKER, A arte não precisa de justificativas, p.61). De acordo com essa afirmação, uma visão cristã da arte deve sustentar que nossa experiência estética possui, ao mesmo tempo, elementos de objetividade e de subjetividade. Tenho dito que a arte é menos objetiva do que gostaria nosso anseio por segurança e menos subjetiva do que gostaria nosso anseio por liberdade. O artista é livre, mas não é Deus. Ele exerce sua criatividade no mundo criado por Deus, a partir dos recursos que Deus dispõe, e, deve fazê-lo respeitando os limites estabelecidos por Ele, sob pena de produzir coisas feias ao invés de belas.

“Quais são as normas para a arte?” é uma questão complicada. Mas um ponto de partida pode ser encontrado nos quatro tópicos a seguir:

1. A arte deve se desenvolver em conexão com o mundo criado por Deus. Embora tenha valor intrínseco, a arte não existe à parte do mundo criado. Na verdade, ela existe para enriquecer a vida no mundo e isso exige que o seu significado seja experimentado na relação com o todo da vida. A implicação disso é que uma das normas da arte é aquilo que costumamos chamar de decoro: a adequação entre ela e o ambiente ou evento no qual ela é veiculada e ao qual ela visa enriquecer.

2. A arte deve se desenvolver debaixo do senhorio de Deus. O pressuposto básico deste segundo tópico é o de que, embora seja criação, a arte não é creatio ex-nihilo [criação a partir do nada], como o ato criativo de Deus. Pelo contrário, ela tem Deus como ponto de partida e referência. A primeira implicação disso é que, além de criativa, ela é sempre alusiva ou representativa. Toda arte é uma forma de expressão e, como tal, veicula uma mensagem. Como deve ser em toda a comunicação humana, essa mensagem deve estar sujeita à Revelação de Deus. A beleza existe numa relação necessária com a verdade e a justiça, e, fora dessa relação, ela simplesmente não pode existir.

3. A arte deve expressar a complexidade do mundo criado por Deus. Outra implicação de ter Deus como ponto de referência é que a arte deve expressar a complexidade da realidade criada. Isso possui implicações para os dois aspectos fundamentais da arte: a forma e o conteúdo. Com respeito ao segundo, a arte não deve ser monotemática, mas precisa expressar a variedade de temas impressos por Deus na realidade que Ele criou. Em relação ao primeiro [forma], ela precisa ser rica e fazer uso da diversidade de materiais, suportes, e outras potencialidades das quais dispõe o artista, segundo a dádiva do Criador.

4. A arte deve ser compreensível. A arte é o resultado da aplicação de talentos concedidos por Deus. Talentos também são dádivas que Deus nos concede, visando o serviço a Ele, através do serviço ao próximo. A arte possui, portanto, um sentido relacional; ela existe para enriquecer a vida de outras pessoas. Isso significa que ela não deveria ser produzida de maneira egocêntrica. Devemos compreender que, num certo sentido, a arte é produto de inquietações e reflexões de um artista, e, neste sentido, é um ato de entrega individual do artista a Deus. Mas ela não deve ser, por princípio, ensimesmada. O artista deve considerar o outro e o universo simbólico dele, evitando qualquer atitude elitista e esnobe que representa um desvio do propósito intersubjetivo da arte.

Ao mesmo tempo em que considera o aspecto normativo da arte, a visão cristã não elimina o espaço para a subjetividade, expressa nos diferentes estilos e na preferência pessoal. Como exercício de nossa criatividade, a arte é o universo de nossa liberdade relativa. Por essa razão, é natural e desejável que haja diferença de estilos entre os diferentes artistas e entre diferentes culturas no tempo e no espaço, da mesma forma que é natural e desejável que os diferentes observadores manifestem sua preferência pessoal por determinadas manifestações, estilos ou artistas.

Por uma razão contextual, é bom lembrar, porém, que estilos não são invólucros neutros. A boa arte estabelece uma relação de coerência entre forma e conteúdo, e a implicação imediata disso é que a forma de uma obra de arte nunca é neutra. Ela é o resultado de uma cultura, um ambiente, um conjunto de possibilidades, e, em última instância, da visão que um artista tem da realidade.

…os pintores pintam o que veem. Porém, uma vez que eles veem o que conhecem, podemos dizer também que eles pintam o que conhecem. Na pintura, ou na comunicação visual, podemos ver o que um artista, como membro da raça humana, colocado em certo ponto de sua história, conhece e entende sobre a realidade. Porém a visão humana da realidade não é apenas conhecimento, no sentido de conhecer o que está lá; é também criação, no sentido de que pessoas querem “realizar” sua visão da mesma realidade (ROOKMAAKER. The christian and art. p.335-336).

É bom lembrar também que, à luz de uma perspectiva cristã, a nossa preferência pessoal não valida a nossa experiência estética. A nossa preferência pelo feio não o transforma em belo, da mesma maneira que a nossa preferência pelo mal não transforma o mal em bem, nem a nossa preferência pela mentira torna a mentira verdadeira.

*Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Rev. José Manoel da Conceição. Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Licenciatura Plena em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção. Mestre em Teologia (THM) com concentração em Filosofia pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper. Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutorando em Educação, Arte e história da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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