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Cristãos x Halloween

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Há quem defenda um total afastamento de todos os elementos da festa e também há quem diga que os cristãos devem retomar o sentido original da celebração

Festa satânica ou celebração de origem cristã? O Halloween, comemorado em 31 de outubro, divide opiniões entres cristãos, mesmo dentro de cada denominação. Há quem defenda um total afastamento de todos os elementos da festa e também há quem diga que os cristãos devem retomar o sentido original da celebração ou, ao menos, se misturar mais para evangelizar a cultura atual.

Nenhuma das grandes denominações cristãs tem uma diretriz oficial dizendo se os seus fiéis podem celebrar o Halloween ou não. A questão cabe ao discernimento de cada cristão. Aqui, trazemos algumas informações sobre a história da festividade e a reação de alguns líderes evangélicos e católicos a ela.

A história do Halloween

A palavra “Halloween” vem de “All Hallows’ Eve”, que significa “Vigília de Todos os Santos”. A Solenidade de Todos os Santos é comemorada pela Igreja Católica no dia 1º de novembro; logo, o dia 31 de outubro é a celebração de sua vigília, como costumam acontecer com as grandes festividades da liturgia católica.

A comemoração de Todos os Santos no dia 1º de novembro data do século VIII. No século seguinte, quando a celebração foi estendida a toda a Igreja, surgiu a expressão inglesa All Hallow’s Eve, ou Halloween. Em 998, Santo Odilo, o abade da abadia de Cluny, na França, acrescentou à festividade um dia de oração pelos fiéis defuntos, no dia 2, costume que em seguida foi oficializado e se espalhou pelo mundo.

Segundo o padre dominicano Augustine Thompson, a comemoração atual do Halloween recolhe contribuições irlandesas, inglesas e francesas. Da Irlanda do século XI, veio o costume de entender os dias 31 de outubro e 1º e 2 de novembro como um tríduo: o dia 2 como dia de oração pelas almas do purgatório, o dia 1º como celebração das almas que estão no céu e o dia 31, então, como lembrança das almas do inferno. Tornou-se costume bater em panelas nesse dia para avisar os condenados que eles não tinham sido esquecidos.

Na França, entre os séculos XIV e XV, se tornaram comuns representações artísticas que lembravam a todos que somos mortais, seja em pinturas ou como apresentações teatrais. As representações mostravam diabos conduzindo pessoas de todos os tipos – reis, papas, camponeses, monges, damas, cavalheiros, etc. – ao seu túmulo. Isso acontecia, porém, no dia 2, não no dia 31.

Já o costume de pedir “gostosuras ou travessuras” (“trick or treat”) vem da Inglaterra e surgiu na comemoração de Guy Fawkes, no dia 5 de novembro. Fawkes foi um católico resistente do século XVII, época de perseguição aos católicos no país. Ele participou de um complô para explodir o parlamento britânico, mas foi descoberto e enforcado – a história em quadrinhos V de Vingança e o filme nela baseado fazem referência ao episódio. Na data que faz memória de Fawkes, era comum que bandos de foliões usassem máscaras e visitassem católicos no meio da noite, pedindo cerveja e bolos para a sua comemoração, dizendo: “Trick or treat”!

Esses elementos parecem ter se cruzado nos Estados Unidos, no século XVIII, a partir dos imigrantes irlandeses, ingleses e franceses, e dado origem à forma como se comemora o Halloween hoje em dia, fixando-se todos no dia 31 de outubro.

“A Europa do terceiro milênio nos deixa apenas as abóboras e nos tira os símbolos mais caros! Não, não me agrada em nada o Halloween”.

Na Europa, outro problema se acrescenta

Só muito recentemente, o Halloween começou a ser introduzido na Europa – inclusive nos países em que se originaram alguns de seus costumes. Por isso, lá o Halloween também está associado ao problema de ceder à influência cultural norte-americana. Isso influencia muitos dos pontos de vista que os líderes cristãos europeus emitem sobre o assunto. O cardeal Tarcisio Bertone, por exemplo, que foi secretário de Estado do Vaticano por sete anos, disse certa vez: “A Europa do terceiro milênio nos deixa apenas as abóboras e nos tira os símbolos mais caros! Não, não me agrada em nada o Halloween”.

“Ninguém – a não ser alguém muito estranho escondido por aí – a festeja pensando em demônios: a maioria das crianças só pedem doces e se divertem”

Já o cardeal Carlo Caffarra, arcebispo de Bolonha, ironizou a comemoração, dizendo que as abóboras são boas “para fazer creme ou recheio de massa”. E o arcebispo de Turim, Cesare Nosiglia, fez uma crítica mais forte: “Essa festa não tem nada a ver com a visão cristã da vida e da morte e o fato de que ocorra perto das festas dos santos e da oração pelos defuntos faz com que se corra o risco de desnaturalizar a mensagem espiritual, religiosa, humana e social contida nesses momentos fortes da fé cristã. O Halloween faz do espiritismo e do senso do macabro o seu centro inspirador”.

Em 2012, a Arquidiocese de Varsóvia, na Polônia, publicou uma mensagem criticando a festa. Segundo a publicação, “Anton Lavey, o fundador do satanismo moderno, manifestou que na noite do dia 31 de outubro ao dia 1 de novembro ocorre a grande festa de Lúcifer”. O texto diz ainda que, “com o pretexto de diversão, convidam crianças, jovens e adultos a praticarem o ocultismo, que está em contradição com os ensinamentos da Igreja e a vocação do cristão”.

Halloween ou Dia da Reforma?

Além disso, no âmbito protestante, a data de 31 de outubro tem uma importância enorme: é o Dia da Reforma, a data em que Martinho Lutero publicou as suas 95 teses, em 1517. Assim, muitos protestantes enfatizam que é essa a comemoração a ser feita nesse dia, temendo que a festa dos monstros ofusque a data. Em muitos países, o dia é comemorado como Dia dos Evangélicos. No Brasil, a partir de uma lei sancionada por Dilma Rousseff em janeiro deste ano, o dia 31 de outubro é o Dia Nacional da Proclamação do Evangelho.

O cantor gospel mexicano Jesús Adrían Romero, manifestou certa vez a opinião de que não é preciso rechaçar a festa, “porque ninguém – a não ser alguém muito estranho escondido por aí – a festeja pensando em demônios: a maioria das crianças só pedem doces e se divertem”. Assim, é importante que os cristãos não se isolem e busquem estabelecer relações amigáveis com os vizinhos – e o Halloween é uma boa oportunidade para isso, segundo Romero.

Voltando ao Dia de Todos os Santos: Holywins

Há igrejas que foram no embalo e aproveitaram para criar o Halloween gospel, em que as abóboras e os doces são decorados com mensagens cristãs. Já entre os católicos há uma incipiente revalorização do dia de Todos os Santos, com grupos organizando festas à fantasia com a temática dos santos. Em muitos lugares, a comemoração tem sido chamada de Holywins – algo como “a santidade vence”.

Na Inglaterra, a comunidade católica Cor et Lumen Christi celebra desde o ano 2000 a Night of Light – noite de luz –, que já se espalhou para outros países. O evento conta com adoração, a missa da vigília de Todos os Santos e diversão e doces para as crianças. A organização ainda incentiva os participantes a se vestirem de branco e a pôr uma vela diante de uma imagem de Cristo Ressuscitado, testemunhando quem é a sua verdadeira luz.

*Com informações Gazeta do Povo