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Cristãos deveriam usar maconha para fins medicinais?

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Andreia e o marido Djovaldo e filhas /Foto Luis Moraes

A polêmica não é nova! Durante muitos anos, o uso da maconha foi considerado
pecaminoso por se tratar de uma droga alucinógena, que ofende o corpo. Sendo o
corpo humano considerado “templo do Espírito Santo”, os cristãos não deveriam usar
a erva sob hipótese alguma. Este argumento é bíblico?

Recentemente, as manifestações pró-cannabis têm alterado alguns pontos de vista,
inclusive de líderes religiosos. Desde que a maconha foi apresentada como um
importante medicamento natural para algumas doenças, muitos estão sendo desafiados a
rever seu posicionamento sobre o tema.

A questão se torna delicada porque, de um lado, vemos a defesa do consumo recreativo,
o que já não é mais um escândalo, como em outros tempos. A sociedade já não
marginaliza seus usuários, como se a maconha fosse só mais uma opção, como o tabaco,
o café ou o álcool. Por outro lado, as descobertas científicas trazem esperanças de alívio
de dores profundas para alguns pacientes.

É claro que essa mudança traz inúmeras consequências e preocupações, especialmente
para pais, pastores, conselheiros bíblicos e líderes de igrejas em geral. De certa maneira,
representantes desses grupos aguardam um “posicionamento cristão” sobre esse assunto
que é complexo e controverso.

Efeitos do uso da maconha
Através do fumo – a maconha ou outras drogas psicoativas têm o objetivo de ampliar
as experiências e sensações humanas. Além disso, se administrada por conta própria
apresenta sérios riscos à saúde, começando pela dependência química, mudança de
personalidade e indiferença ao mundo que está ao redor. Em quase todos os casos do

uso recreativo da maconha, a motivação básica é a intoxicação para se obter os efeitos
proporcionados por essa erva.

Usuários da maconha possuem motivações diversificadas: diversão, fuga da realidade
ou busca de um alívio imediato para sofrimentos. Em todos os casos, “portas são
abertas” para o consumo de outras substâncias mais fortes e mais danosas. A proposta
do alívio pode se tornar um pesadelo, tanto para a família como para o usuário.

Através do óleo essencial – nos últimos anos, diversos estudos científicos apontaram
que substâncias extraídas da cannabis, como o canabidiol (CBD) e o tetra-
hidrocanabidiol (THC) – seu princípio psicoativo, podem ser usados para fins
medicinais, em terapias para pacientes com dores crônicas e outras enfermidades
graves, como câncer, epilepsia, fibromialgia, autismo e Parkinson. No caso da epilepsia,
diminuem a incidência dos espasmos, melhorando assim a qualidade de vida dos
pacientes.

Por que Deus criou a maconha?
Muitos se perguntam o motivo de Deus ter criado a maconha, sabendo que os seres
humanos a usariam como droga. Segundo Mário Persona, que recebeu esse
questionamento em seu canal do Youtube “O que respondi…” é importante lembrar que
a entrada do pecado no mundo alterou a realidade tanto da fauna quanto da flora, micro-
organismos e DNAs. “De fato, nada é mais como antes. A terra foi amaldiçoada”,
lembrou o palestrante e consultor de comunicação.

“Não sabemos se as plantas que temos hoje teriam as mesmas propriedades que tinham
quando foram criadas, pois sabemos que o pecado de Adão e Eva não apenas
arruinaram toda a raça humana, mas também o ambiente onde tinham sido colocados”,
argumentou.

Persona aponta para o fato de estarmos cercados, não apenas de ervas daninhas,
espinhos e plantas venenosas ou alucinógenas, como também de outras coisas que
podem nos fazer mal. “Pense, por exemplo, no próprio fogo que usamos para preparar
nossa comida. Quando alguém fabrica um explosivo está criando uma reação química
que produzirá um fogo de grandes proporções que poderá matar muitas pessoas.

Então o problema não está na coisa em si, porque explosivos também são usados para construir
estradas e extrair a pedra de construção. O problema está no uso que as pessoas fazem
disso”, alertou.

Sobre a maconha, ele destaca que há muitos medicamentos derivados que ajudam a
tratar doenças psiquiátricas ou neurodegenerativas, como esquizofrenia e ansiedade.
“Da papoula de onde se extrai o ópio, se produz também a morfina capaz de amenizar
as dores mais terríveis em vítimas de acidentes”, continuou.

Portanto o mal não está nas plantas narcóticas ou alucinógenas, o mal está no ser
humano. “Você pode usar uma faca para cortar pão ou matar seu próximo. Veja que até
a Palavra de Deus, que nos foi dada para termos vida, tem sido usada ao longo dos
séculos para justificar massacres de pessoas que se opuseram a ela”, disse ao citar a
inquisição.

“Tanto a igreja católica quanto a protestante, que agiram assim, às vezes queimando na
estaca os que se opunham ao ensino da Palavra de Deus ou, no caso de verdadeiros
crentes em Cristo, pelo único crime de terem em mãos uma cópia de seus textos”,
mencionou.

Legalização da maconha medicinal no Brasil
Em publicação recente do Uol, a médica aposentada Nina de Queiroz, de 60 anos, disse
que sofria de uma forte depressão quando decidiu se consultar com um médico que
receitava cannabis sativa, a popular maconha. “Eu tomava vários antidepressivos, mas
nenhum funcionava. Saí do consultório decidida a entrar na Justiça para garantir meu
direito constitucional à saúde”, lembra.

No final de 2018, meses depois de iniciar o processo, Nina se tornou a primeira pessoa
com depressão a obter autorização da Justiça brasileira para o cultivo medicinal da
maconha. Hoje, ela cuida de seis plantas em sua casa, em Natal, e as utiliza de várias
maneiras, mas principalmente na cozinha: faz azeite, mel e até brigadeiro.

“Para mim, funciona melhor quando uso ao longo do dia, em pequenas doses na
comida. À noite, vaporizo um pouco para dormir bem. Antes da cannabis, cheguei a

ficar 10 dias trancada em casa, muitos deles sem dormir, com as janelas fechadas,
deitada na cama, sem vontade de levantar. Hoje sou outra pessoa, muito mais calma,
mas também ativa, vivo o presente. Fico emocionada ao dizer que a cannabis trouxe
outro sentido para minha vida”, ressaltou.

Sobre a regulamentação da maconha no Brasil
Apesar de uma lei aprovada em 2006 já prever o uso medicinal da maconha, a falta de
regulamentação levou a recentes decisões judiciais autorizando pacientes a cultivar
cannabis para tratar diversas patologias.

As decisões judiciais somadas a um maior número de prescrições médicas e à
diminuição da burocracia para importação de remédios estão criando uma espécie de
“legalização silenciosa” da maconha medicinal no Brasil.

O resultado foi o florescimento desse mercado nos últimos meses, segundo médicos,
pacientes, advogados e empresários ouvidos pela BBC News Brasil. Por outro lado,
quem plantar ou comercializar maconha sem autorização da Justiça pode ser punido
com prisão. No caso de Nina, a Justiça concedeu a ela um habeas corpus preventivo,
em caráter provisório, que a resguarda do risco de ser presa ou processada.

O plantio de cannabis para uso medicinal e científico já é previsto no Brasil desde 2006,
por meio da lei 11.343, a chamada Lei de Drogas, aprovada no governo Luiz Inácio
Lula da Silva. Mas pouco se avançou na sua regulamentação até o início desta década.

Pais de filhos com epilepsia grave pressionam o governo
Segundo relatos dos pais, derivados da cannabis são os únicos medicamentos que
funcionam para diminuir a incidência dos espasmos em crises epiléticas. A psiquiatra
Eliane Nunes, diretora da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis (Sbec), tem
dado cursos sobre maconha medicinal e obtenção de habeas corpus na periferia de São
Paulo.

Recentemente, ela criou o projeto “Mães e Mulheres Jardineiras”. O grupo reúne cerca
de 30 parentes e pacientes de baixa renda que estão em busca da permissão judicial. “O
objetivo é capacitar essas mulheres para que elas tenham a documentação necessária.

Outro ponto importante é que o habeas corpus é preventivo. Uma mãe de um filho com
epilepsia, por exemplo, já precisa estar plantando para entrar com o pedido. Mas, para
isso, ela corre risco de ser presa enquanto a decisão não sai”, explicou.

A psiquiatra que tem 500 pacientes de cannabis faz também um alerta: “é preciso ter
mais certeza sobre a qualidade dos remédios. A verdade é que o que está no rótulo nem
sempre é o que está dentro do frasco. Como cada planta é de um jeito, cada lote de óleo
vendido pode ter uma composição diferente”, esclareceu.

Evangélica que mudou de ideia sobre a maconha
Antes de conhecer os benefícios medicinais da maconha, Andreia e o marido Djovaldo
Rodrigues, de Mogi das Cruzes, SP, não aprovavam a ideia. “Eu sempre fui muito
conservadora, filha de pai militar, fui criada nas rédeas. Era super preconceituosa e
morria de medo só de ouvir o nome ‘maconha’. Nunca usei maconha na minha vida. Pra
mim maconha era coisa do demônio”, disse Andreia em entrevista exclusiva à Revista
Exibir Gospel.

Ela conta que um dia, a filha mais velha, Ester de 17 anos, chegou com a novidade,
dizendo que a maconha poderia ajudar suas irmãs gêmeas, de 7 anos, Isadora com
epilepsia e Isabela com paralisia cerebral. “Eu só faltei bater nela e disse: ‘Você é
louca? Acha que vou dar maconha para as suas irmãs?’ Mas eu não sabia que existia o
óleo da maconha”, lembra.

Mas depois de participar de um curso sobre os benefícios da cannabis, promovida por
um padre conhecido como Ticão e a Universidade Federal de São Paulo, dentro da
comunidade Hermelino Matarazzo, a mãe levou uma amostra para casa. E o que o
tratamento de longos anos na rede pública nunca resolveu, o pequeno frasquinho com o
óleo provou ser a diferença.

Ela conta que antes, as meninas que também sofrem de apneia do sono, não conseguiam
dormir e que isso interferia na qualidade das noites da família toda. “Um dia, abracei
meu marido e disse que não estava aguentando mais. Tentamos de tudo. Olhei para o
céu e pedi para Deus me indicar um caminho e ajudar a encontrar uma forma de acabar
com o sofrimento das minhas filhas”, disse.

Quando usou o óleo de cannabis pela primeira vez, disse que pareceu milagre. “Foi
muito rápido. Eu e meu marido oramos primeiro. Demos umas gotinhas para as meninas
e em 15 minutos as duas estavam dormindo, como nunca tinha acontecido antes. Essa é
uma erva santa, que tem que deixar de ser demonizada para ajudar as pessoas que
sofrem com diversos problemas de saúde. Hoje eu sei que a maconha serve para mais de
250 tipos de enfermidades”, defendeu.

Desde então, Andreia agradece pela qualidade de vida. “Meus olhos se abriram. Entendi
que Deus havia preparado o remédio para a nossa cura, porque a família toda estava
adoecida. As crises reduziram, as gêmeas passaram a ter mais autonomia, e a se
comunicar melhor”, disse aliviada.

“Pedi perdão para minha filha, pois eu não acreditei nela, e ela estava certa. Eu fui tão
ignorante, mas hoje sinto gratidão. Muita gratidão. Agradeço a todos os que fizeram
parte desse processo. Tenho um amor imenso pela comunidade do Hermelino
Matarazzo que tanto nos ajudou”, mencionou.

Agora a luta da família é outra: aguardar a legalização do uso medicinal da planta no
Brasil. Mesmo com a autorização da Anvisa, o remédio disponível é muito caro, pois é
importado. Atualmente, Andreia se define como ativista e defende o uso da maconha
para fins medicinais. “Muitas outras Andreias preconceituosas, que sofrem com filhos
doentes, poderiam ter a ajuda do óleo da maconha”, conclui.

Por Cris Beloni

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