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Só a cultura empodera, cura feridas e pode vencer o patriarcado

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*Por Gisleine Zarbiettis

Como um país que tem a terceira lei mais moderna do mundo no combate à violência doméstica pode ser ao mesmo tempo o quinto que mais mata mulheres? A Lei Maria da Penha, que completa 15 anos no próximo dia 7, é referência mundial, mas não atua sozinha. Carece não só de estrutura pública e investimento, mas principalmente de um olhar que abarque uma atmosfera cultural e busque as causas mais profundas dessa problemática social.

A violência doméstica gera custos ao sistema de saúde e à economia, o que impactam no desenvolvimento do país. Mulheres violentadas, sejam físicas ou psicologicamente, têm mais dificuldades de se reestabelecer emocionalmente e, consequentemente, se reinserir e progredir no ambiente profissional.

Tão importante quanto denunciar abusos e lutar por direitos é a necessidade de se autotransformar para ganhar um espaço legítimo. Isso passa pela necessidade de se trabalhar a dor em seu aspecto artístico-cultural em vez de alimentar estatísticas que, na maioria das vezes, têm finalidades políticas e eleitoreiras.

É só a cultura que tem o poder de sensibilizar pessoas a se posicionarem diante da dor do outro, desconstruir hierarquias e a violência. Ações sociais não podem ser desprezadas, principalmente neste momento que passa a humanidade, mas estão longe de empoderar.

É com investimento em projetos culturais que se combate a violência doméstica em sua raiz. Não há outro caminho, se não o da arte, para curar feridas e ajudar a conectar com o sagrado feminino. Somente mulheres curadas podem vencer o machismo estrutural, gerador da violência doméstica.

Conectar o sagrado feminino é despertar a consciência, é se apropriar do corpo em sua totalidade e não àquele submetido a tabus e estereótipos – como descreveu Simone de Beauvoir – que legitimam as mais evidentes discriminações. Através da dança, do artesanato, da escrita, do desenho, da maquiagem e de qualquer outra forma de expressão e autocuidado a mulher consegue acessar o sagrado e desenvolver seu poder pessoal.

O desmantelamento das políticas culturais que hoje vivemos escancara o quanto a arte e a cultura ameaçam a supremacia patriarcal. Esse cenário violentamente oprimido e silenciado advém não somente dos homens, mas de mulheres que se apropriam da escalada feminista para defender um projeto pessoal de poder.

É o desmonte cultural que financia a opressão. É do sucateamento da arte e da desvalorização dos artistas que emergem perfis estereotipados e condicionados a reproduzir o discurso patriarcal valendo-se de um “empoderamento” que não passa de uma metástase da sociedade pós-moderna. Está longe de dialogar com as reais necessidades de quem passa pelo crivo da dor.

Nunca alcançaremos a cura se o foco de qualquer ação for empoderar a mulher. A violência doméstica só será superada quando curarmos o feminino, que é o que empodera. Para isso, mulheres precisam passar pelo processo de experimentação ao poder que lhe foi negado, o que perpassa pela cultura. É empoderando o feminino e não somente a mulher que essas vítimas poderão irradiar seu farol de luz e vencer o patriarcado.

Gisleine Zarbiettis é jornalista especialista em Educomunicação, autora do livro “Memórias de Suzano – história e fotos de todos os tempos, do vilarejo à cidade grande”; empreendedora e mãe.