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A vida comunitária da fé

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A perspectiva bíblica do Novo Testamento está baseada na unidade da igreja. Esta unidade supera as divisões que fazem parte do imaginário ideológico do mundo. A base da vida social secular é o impulso instintivo da separação e parece natural que nossas individualidades se sobreponham aos processos coletivos. O evangelho, porém, mostra-nos de maneira bastante clara que em Cristo todas as barreiras foram derrubadas e que a unidade da igreja é a extensão exata do corpo material de Jesus. É na igreja que vemos a criação de uma nova humanidade, não mais solidária a Adão, mas sim a Jesus, restaurando o propósito original de Deus de ser uma família homogênea, unida, fraterna e solidária.

O apóstolo Paulo não se ausenta deste tema e chama a atenção da igreja para uma nova forma de ação promovida por essa nova humanidade construída em Cristo Jesus. Em Cristo foram derrubadas as barreiras que nos separavam e tanto a circuncisão quanto a incircuncisão são nada (Gl 6.15), as divisões humanas entre judeus e gentios ficaram no passado (Ef 2.11), os dois inimigos agora estão unidos como um só corpo (Ef 2.16). Na circuncisão promovida por Jesus somos libertos das amarras do pecado e podemos lutar contra a natureza pecaminosa que nos impulsiona a divisões, discórdias, facções e infidelidades (Cl 2.11). Antes éramos estrangeiros e agora somos membros da família de Deus (Ef 2.19), edificados para ser morada do Espírito Santo de Deus (Ef 2.22).

Assim, a Ceia do Senhor torna-se a confissão de fé material desta nova humanidade em Cristo Jesus. É na comunhão dos irmãos que vemos o corpo de Cristo material e espiritualmente ativo.

Neste sentido é de suma importância perceber que a vida comum da igreja passa pela celebração desta unidade, baseada em dois preceitos que não podem estar isolados um do outro: “memória” e “anúncio”. O memorial é o selo, o caminho, a validação da ação; é por causa da ação de Jesus que nos substituiu que podemos celebrar nossa união vertical e horizontal. É tendo a obra de Cristo presente em nossa memória que podemos ser fraternos, piedosos e amorosos. Porém, o propósito final da celebração da Ceia não pode ficar restrito a um memorial, mas deve ir além da possibilidade da fé platônica, sair do campo do imaginário e se concretizar em ações na direção do outro (Tg 1.23; 2.17-20). Se isso não acontecer, seremos condenados com o mundo e seus pecados separatistas (1Co 11.32).

Na Celebração da Ceia somos impulsionados à prática da fraternidade, da inclusão e da piedade, para que isso sirva como testemunho, como anúncio aos que ainda crerão e que serão unidos à família da fé (Jo.17:20).

O propósito supremo da ceia é soteriológico (ramo da teologia que estuda a salvação do homem), mas o caminho para se alcançar este propósito é pavimentado materialmente pela prática da vida comum. O anúncio tem suas relações baseadas em três ângulos prioritários. Primeiro, ele é ponte de evangelização e salvação. Segundo, ele é consequência da vida comunitária. E terceiro, ele é companheiro inseparável da missão da igreja. Vale lembrar que o anúncio verbal ou a exposição oral do evangelho não basta, não alcança todos os elementos da evangelização: é necessário que nossas palavras encontrem eco em nossas atitudes. Assim, o Cristo não é apenas modelo platônico a ser seguido, ele é elemento presente, encarnado em nossa vida (Jo 17.18; 20.21). A igreja precisa ser holística (integral em entender as coisas) e integral em sua vivência comunitária, olhando os seres humanos como são: humanos, com todas as suas complexidades e necessidades, tanto espirituais quanto emocionais e materiais.

         Mas como podemos alcançar este tão maravilhoso grau de maturidade espiritual, que nos faz renunciar a nossos impulsos individuais?

Buscando o único dom do Espírito capaz de mudar-nos por completo, o amor. O capítulo 13 de 1 Coríntios diz isso: não se pode mudar o pensamento mundano separatista com o dom de línguas espirituais, não se pode avançar apenas focado em profecias e, mesmo que se tenha fé suficiente para mudar montanhas de lugar, se não tivermos amor tudo aquilo de nada valeria – seríamos como um metal que soa e um prato que retine. O amor é o dom que pode mudar todas as estruturas destrutivas do pecado, pois ele é paciente, benigno, humilde, decente, abnegado, perdoador, justo e verdadeiro. Os que amam sabem que este dom nunca poderá ser vencido, pois tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. É a única coisa que depois de tudo consumado permanecerá. Só o amor é capaz de nos mostrar todas as verdades de Deus, só ele pode nos fazer amadurecer como Jesus e só ele pode nos proporcionar uma família coesa, fraterna, que produz alimentação espiritual forte e sadia. Somente o amor nos fará sair da exclusividade nociva de nossas liturgias para uma vida inclusiva e compartilhada.

É necessário amar para mudar nossa mente e transformar tudo o que está à nossa volta. Só assim poderemos experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2).

Paternalmente.

João Paulo Gouvêa é pastor da Igreja Batista Chácara Flora, apresentador do programa “Painel Literário”, da Rádio Trans Mundial, e coordenador editorial da RTM Editora.

Este texto é um trecho adaptado do livro “Corpo e Sangue: anunciando sua morte até que ele venha”, publicado pela RTM Editora.