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Cinegrafista é condenado à prisão perpétua na Turquia por “perturbar a unidade do Estado”

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Londres – Em mais um caso de jornalista condenado por seu trabalho, o premiado cinegrafista turco Rojhat Doğru foi condenado pela justiça de seu país à prisão perpétua pela cobertura feita há oito anos dos protestos contra o cerco do Estado Islâmico (ISIS) a Kobani, cidade síria de maioria curda localizada na fronteira com a Turquia.

O cinegrafista foi condenado no dia 7 de janeiro sob a acusação de “perturbar a unidade do Estado e a integridade do país”. Adicionalmente, recebeu uma sentença de 10 anos e 10 meses de prisão por tentativa de homicídio e outra de 1 ano e 3 meses por “propaganda de organização terrorista”.

Doğru já trabalhou para vários meios de comunicação que cobrem áreas curdas no Iraque e na Síria. O advogado dele, Resul Temur, informou que vai recorrer da decisão, afirmando que a promotoria ignorou as principais provas e os depoimentos de testemunhas.

Sentenciado por falta de credencial 

Esta não é a primeira condenação de jornalistas vistos como inimigos pelo governo de Recep Erdogan.  

Em dezembro de 2020, um tribunal turco havia condenado o jornalista Can Dundar, crítico do presidente, a 27 anos de prisão. Dundar publicou reportagem revelando um sistema de entrega de armas de Ancara a grupos islâmicos na Síria. Ele está exilado na Alemanha. 

Durante o julgamento do cinegrafista Rohhat, o tribunal turco considerou o fato de o réu não portar uma credencial no momento da cobertura.

“Nosso cliente é um jornalista”, disse o advogado, acrescentando: “O fato de ele não estar portando uma credencial de imprensa não muda esse fato.”

Quando documentou os protestos de 2014 em Kobani, Doğru estava a serviço da Kurdistan Gali TV.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) fez um apelo às autoridades turcas para que não condenem integrantes da imprensa por causa do seu trabalho.

A Turquia está entre os 30 países com pior colocação no ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras de 2021, ocupando o 153º lugar entre os 180 analisados.  O país é considerado hostil ao trabalho dos jornalistas, no qual 90% dos veículos de comunicação permanecem sob controle do governo.

No mesmo ranking, o Brasil ocupa a 111ª colocação, com queda de 4 posições em relação a 2020. 

Jornalista condenado ganhou prêmio

Durante o julgamento, o tribunal turco expediu um mandado de prisão, mas o jornalista não estava presente. O CPJ informou que não conseguiu apurar se ele havia sido detido.

O nome de Doğru se tornou conhecido com as imagens do conflito do cerco a Kobani, entre 6 e 8 de outubro de 2014. Com essa cobertura, ele conquistou o prêmio da Associação de Jornalistas do Sudeste, na Turquia.

O cerco de Kobanî foi uma batalha travada entre as forças do Estado Islâmico do Iraque e combatentes do curdistão sírio. A luta se iniciou em setembro de 2014 quando os militantes do Estado Islâmico investiram contra a região, iniciando uma violenta batalha contra as milícias curdas.

Jornalista acusado de terrorismo

As acusações de propaganda terrorista, assassinato e unidade foram agrupadas num só julgamento, durante o qual as autoridades apresentaram supostas evidências, incluindo uma foto que Doğru teria postado em sua página do Facebook de uma área no Iraque então controlada pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um grupo banido da Turquia.

No entanto, o CPJ informou que não conseguiu localizar essa post no Facebook e que Doğru afirmou que atuava naquela área como repórter.

As autoridades alegaram que o número de telefone de Doğru teria sido encontrado com um suspeito em uma investigação de terrorismo, que uma nota encontrada com um membro do PKK mencionava o nome “Rojhat” e que o jornalista teria feito ligações e transferências de dinheiro incriminatórias.

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