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22/07/2024

Estudo

Estudo revela relação entre queda da religião no Ocidente e diminuição no número de filhos

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A secularização ou descristianização tem sido apontada como um dos principais motivos para a redução no número de filhos em países ocidentais. Essa tendência, que preocupa muitas nações atualmente, foi observada na França décadas antes da revolução de 1789, antecipando o que ocorreria posteriormente na Inglaterra e no País de Gales.

Guillaume Blanc, professor assistente de economia na Universidade de Manchester, Reino Unido, apresentou essas conclusões em um artigo divulgado na revista Works in Progress em fevereiro. O pioneirismo francês na transição de alta para baixa fertilidade é amplamente conhecido por historiadores, sendo considerado o “fato mais importante de toda a sua história” por Alfred Sauvy, renomado economista, demógrafo e sociólogo francês.

Para investigar essa questão, Blanc utilizou uma extensa base de dados genealógicos gerada com a contribuição do público. Essa base de dados abrange séculos de história registrada de milhões de indivíduos comuns, tanto de áreas urbanas quanto rurais em todo o território francês. O pesquisador comparou esses dados com informações provenientes do Censo francês, iniciado apenas no século XIX, e outras fontes representativas.

Para avaliar a religiosidade, foram utilizados indicadores indiretos, como a maneira como os indivíduos elaboravam seus testamentos. Observou-se que ao longo do tempo, esses testamentos perderam cada vez mais referências à fé e citações religiosas. Esse padrão desafiava diretamente a ênfase da Igreja Católica na lição bíblica de “crescei e multiplicai-vos”, especialmente a partir da Contra-Reforma no século XVI.

Durante a Revolução Francesa, as autoridades estatais exigiram que os clérigos jurassem lealdade ao regime, que se tornava cada vez mais anticlerical. Alguns revolucionários chegaram a adotar a “Deusa Razão”, símbolo dos ideais do Iluminismo, em substituição à religião. Essa situação culminou no conflito entre o clero refratário (que se recusou a fazer o juramento) e as autoridades revolucionárias. Blanc descobriu que indivíduos que nasceram em regiões com clero refratário tiveram mais filhos, revelando uma relação estatisticamente significativa e robusta.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Blanc afirmou que os resultados de sua pesquisa são generalizáveis e demonstram que a religiosidade está positivamente correlacionada à fertilidade. No entanto, ele ressalta que ainda é uma questão em aberto determinar quando essa relação começou.

Ao ser questionado se a secularização é a principal responsável pela queda na fertilidade na França, em detrimento de outros fatores como nível educacional, Blanc afirmou que “não, meus resultados sugerem que é a perda da influência da Igreja Católica”. A virada de 1760 precedeu em pelo menos um século a educação em massa. A secularização foi um processo popular e espontâneo, não imposto por elites, e esteve em consonância com o Iluminismo. No entanto, o Iluminismo não pode ser considerado uma explicação suficiente, pois se difundiu pela Europa sem ser acompanhado por uma secularização generalizada. Em resumo, houve uma mudança de ideias e crenças.

Enquanto a secularização pré-revolucionária francesa foi um processo popular e orgânico, a secularização em ditaduras comunistas, como a de Mao Tse-tung na China e a de Lênin na Rússia, foi forçada. Blanc acredita que o estudo dessa diferença pode ser promissor. Vale destacar que o relaxamento da política do filho único na China não resultou em um aumento na fertilidade, que continuou baixa.

Embora seja reconhecido que a Revolução Francesa tenha promovido a secularização, especialmente pela perseguição aos clérigos que se recusaram a jurar lealdade ao regime, Guillaume Blanc acredita que foi a própria população que proporcionou o ambiente cultural propício para tanto a secularização quanto a revolução. Os franceses não apenas rejeitaram os ensinamentos da Igreja, mas também a monarquia e as elites, que possuíam fortes laços com a instituição religiosa.

A queda na fertilidade é uma preocupação global, e compreender suas causas é de extrema importância. A taxa média de 2,1 filhos por mulher é necessária para manter uma população estável em termos de tamanho, sendo conhecida como “taxa de reposição”. Atualmente, a taxa média na Europa gira em torno de 1,59, levando dois terços dos países europeus a implementar políticas para incentivar a maternidade, desde o perdão de dívidas até incentivos fiscais e licença maternidade e paternidade.

O Brasil foi surpreendido pelo Censo de 2022, que revelou uma taxa de fertilidade de 1,6 filho por mulher e uma população geral abaixo das projeções. Embora os brasileiros continuem sendo majoritariamente religiosos, a parcela da população sem religião tem crescido nas últimas décadas, atingindo 10% em 2020, de acordo com o Datafolha.

Exibir Gospel / Leiliane Lopes