Trabalho de ação social realizado pela Igreja Universal /
Foto: Divulgação
Uma caixa de som toca “Festa de Rodeio”, do sertanejo
Leonardo, enquanto o caminhoneiro Sebastião Jorge Paes Peixoto, 53, tem suas
unhas lixadas e esmaltadas com base transparente. “Meio efeminado”, brinca, ao
ver o resultado da primeira vez que havia passado por uma manicure.
Ao lado dele, outros motoristas de caminhão tinham o cabelo
cortado, a barba feita ou a pressão medida por voluntários da Igreja Universal
do Reino de Deus (Iurd), que montou uma tenda em um terminal de cargas da
rodovia Fernão Dias, na Vila Sabrina (zona norte de São Paulo), para uma ação
do programa de assistência social que iniciou durante a greve dos caminhoneiros
de 2018.
O Guardiões da Estrada é um dos quatro projetos lançados no
ano passado pela Universal, que expande sua atuação em meio à crise econômica
e, em situações de vulnerabilidade social, ocupa espaços negligenciados pelo
poder público.
São 257 mil voluntários no país, segundo dados enviados à
Folha pela Universal, oferecendo desde cursos e orientação jurídica ou
psicológica aos mais variados serviços, como corte de cabelo, manicure e até
aula de alongamento, sempre seguidos por oração.
Os outros programas criados em 2018 foram o EVG Night,
voltado a prostitutas e travestis, o Grupo Saúde, para familiares de pacientes
de hospitais públicos, e o Universal nas Forças Policiais, que atende
profissionais da Polícia Militar, Civil, Federal, Rodoviária, Corpo de
Bombeiros, agentes penitenciais e Forças Armadas.
Ao todo, segundo a igreja, são 15 projetos, que, em 2018,
ano em que a Universal apoiou a candidatura à Presidência de Jair Bolsonaro,
atenderam perto de 11 milhões de pessoas no Brasil. No exterior, afirma ter
atuado em 92 países, dez a mais do que em 2017, e beneficiado 3 milhões, com a
participação de quase 63 mil voluntários.
Genro de Edir Macedo e hoje o principal dirigente da
Universal, o bispo Renato Cardoso, ao comentar essa expansão, opta por uma
comparação com o mais famoso programa social do governo federal. “Em números de
beneficiados, os programas sociais da Universal já representam quase um terço
do Bolsa Família”. A declaração está no material com dados sobre a expansão dos
projetos da Universal encaminhado à Folha de S. Paulo pela assessoria de
imprensa.
De acordo com os números divulgados, dentre os quatro novos
projetos, o que contou com a maior quantidade de voluntários foi o Grupo Saúde,
quase 24 mil, que atenderam mais de 750 mil pessoas.
No ano passado, a Universal lançou quatro projetos que
atendem pessoas negligenciadas pelo poder público. O Guardiões da Estrada,
voltado para caminhoneiros, é um deles – Ronny Santos/Folhapress
Esse foi o mais próximo do alcance do Universal nos
Presídios, um dos mais antigos e abrangentes programas da Universal, que, no
ano passado, teve 27 mil fi dando assistência a 1,6 milhão de presidiários e
seus familiares.
Noite gelada
Em uma noite do último mês junho, com um vento gelado
soprando e a temperatura perto dos 10graus Celsius, cerca de 30 voluntários com
aventais brancos colocaram mesas com lanches em frente ao Hospital Regional
Sul, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo.
O grupo começou a se organizar por volta das 20h30 e, em
poucos minutos, formou-se uma fila de pessoas doentes e seus familiares, que
aguardavam atendimento no pronto-socorro. Àquele horário, não havia onde comer
por ali.
Voluntários com cadernos em mãos anotavam contatos de quem
se aproximava, perguntavam sobre a doença, informavam que alimentos estavam
sendo oferecidos. Com bronquite, 39 graus de febre, Luis Silva Santos, 7, se
aguentou em pé com esforço por alguns minutos na fila, em companhia de uma tia,
até chegar a sua vez de escolher o lanche.
Ele estava havia quase duas horas nos bancos da recepção do
hospital. Nas mesas com as comidas e as bebidas, ouvia cada fiel oferecer algo
diferente: “Gostaria de passar álcool gel nas mãos? Prefere chocolate quente,
chá ou café com leite? Quer sanduíche? Bolo? Salada de frutas?” Ao final, a
última oferta: “Aceita uma oração?” Luís, como a maioria dos que estavam na
fila, aceitou. Equilibrando com dificuldade as embalagens de tudo o que havia
recebido, o menino fechou os olhos enquanto duas fiéis rezaram por alguns
segundos com as mãos sobre sua cabeça. “Amém”, e ele voltou ao banco do
hospital onde comeu o lanche e seguiu esperando pelo médico. “As famílias e os
doentes ficam horas na fila de espera dos prontos-socorros sem nada para comer.
Faz toda a diferença receber um lanche, uma palavra, uma oração”, disse o
pastor responsável pela ação daquela noite, Jonathan da Silva Pereira, 32.
“O próprio sistema deveria oferecer esse conforto aos
pacientes, mas não oferece”, comentou Dina Santos, 42, técnica em enfermagem e
voluntária da Universal há 12 anos.
A vulnerabilidade no Brasil embaralha públicos-alvo da
assistência social, e a fila para pacientes e seus familiares foi certa hora
tomada por moradores de rua.
Mariana Gomes de Paula, 26, e a filha, Ranieli, 5, pegaram o
lanche perto das 23h. Dormindo em papelão nas calçadas há sete meses, era a
primeira vez que comiam algo naquele dia. Só recusaram a oração.
Para essa população em situação de rua, a Universal tem o
Anjos da Madrugada, também um de seus maiores projetos, com 1 milhão de
atendidos no país em 2018, por 23.500 voluntários (veja quadro com os
programas).
Caminhoneiros – O Guardiões da Estrada é o mais recente
projeto, criado em setembro de 2018, três meses depois da paralisação dos caminhoneiros.
“A greve nos despertou. Esses profissionais sofrem com a falta de carga,
estradas com buracos, assaltos, problemas de colu na, preocupação com problemas
financeiros, com a família. Muitos têm depressão”, afirmou o pastor Rondineli
Pedro da Silva, 38, responsável pela ação no terminal Fernando Dias.
Voluntários da Universal ficam nas portas de hospitais
públicos em um projeto voltado para enfermos e seus parentes. Oferecem comida e
oração para os que se aproximarem – Karime Xavier/Folhapress
Era uma noite fria de maio, o chão tinha lama graças a uma
chuva recente, e “Mexe Mexe” havia acabado de entrar no lugar de “Festa de
Rodeio”. Caminhoneiro há 20 anos, Aldo Ferreira da Silva, 51, cortava o cabelo
pela terceira vez com os voluntários evangélicos. Com o aluguel de R$ 800
atrasado, além da conta de luz, disse que não poderia perder a oportunidade de
economizar no corte. “Estava ruim e só piorou depois da greve, tem muito
motorista passando fome. Eu estou há duas semanas aqui sem conseguir carregar o
caminhão”, suspirou.
Ao seu lado, já no quinto corte de cabelo nas ações da
Universal, Marco Antônio Guersoni, 60, motorista há 25 anos, reforçou o
lamento: “Estamos perdidos… Eu não estou conseguindo sustentar a minha família.
Ficamos sem carga em lugares assim, bagunçados, sem ter onde tomar banho. É uma
sensação de solidão enorme”.
O pastor iniciou a oração: “Homens, gente da família e
políticos já prometeram muitas coisas para vocês e não cumpriram. Mas Deus
cumpre”. Todos receberam a “Bíblia Sagrada do Caminhoneiro”, uma edição com
prefácio da cantora sertaneja Sula Miranda, conhecida como a “rainha dos
caminhoneiros”, convertida à Universal.
Após essa bênção, um fisioterapeuta fez uma sessão de
alongamentos. “Quem aí já acordou com o pé lascado?” Os cerca de 50 motoristas
presentes levantaram as mãos.
Sebastião deu risada. Enquanto esticava braços e pernas,
contou ter um problema sério na coluna.
“Mas quando pinta carga eu esqueço a dor e vou embora. Eu
amo meu trabalho, o caminhão faz parte do meu corpo”. Há 40 horas sem dormir,
relaxou com o alongamento e sentiu sono. “Vou para o caminhão dormir”,
despediu-se. “Que amanhã eu tenho que carregar o caminhão com essas unhas
feitas.”
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Universal em expansão
Dados de 2018
Fiéis: 7 milhões no Brasil e 2,8 milhões em 126 países dos cinco continentes
Templos e catedrais: 8.773 no Brasil e 3.500 no exterior
Corpo eclesiástico: 16.600 bispos e pastores no Brasil e no exterior
Projetos sociais: 15 programas no Brasil e em outros 92 países
Voluntários: 257 mil no Brasil e 63 mil no exterior
Atendidos: 11 milhões de pessoas no Brasil e 3 milhões no exterior
Comunidades assistidas: presidiários, dependentes de álcool e de drogas, adolescentes, idosos, moradores de rua, prostitutas e travestis, policiais, pacientes de hospitais públicos, mulheres vítimas de violência e caminhoneiros
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*Fonte: Igreja Universal e Folha de S. Paulo